Sábado à noite, Alanis Morissette tocando na Alexa, já são 21h11 e você está lavando a louça do jantar. Lá fora, Brasília está no auge da seca: dois meses sem chuva, o céu do cerrado sem uma nuvem há semanas, a umidade do ar disputando com a do deserto do Atacama, o cheiro de terra queimada entrando pela janela da cozinha. O ipê-amarelo da quadra floresceu no meio dessa aridez toda, teimoso.
É agosto. Dentro da cozinha, as mãos esfregam o prato sujo de molho de tomate, sua cabeça esfrega os pensamentos que não param. Você rumina mentalmente a fatídica frase que seu chefe soltou na reunião das 14h30 da sexta-feira. Ele levou talvez três segundos para dizê-la, mas ela ressoa mentalmente já umas cento e quarenta vezes. As reprises são criativas, em umas ele parece irritado, em outras, decepcionado. Nas melhores, você levanta e responde na hora, com uma precisão incrível. Essa frase foi falada pelo seu chefe uma vez. Você continua apertando o replay desde então.
Eu conheço essa cena por dentro. Sou um ótimo ruminante — mental, no caso. Se ruminação desse medalha, eu teria pódio garantido: pego uma frase de três segundos e produzo com ela uma minissérie de quatro temporadas, com flashback, narrador onisciente e final alternativo. Foi o budismo que me ensinou a fazer a coisa mais estranha e mais útil da minha vida: duvidar da minha própria mente. Não de tudo que ela diz, mas do noticiário de plantão que ela transmite às 21h da noite, com manchete urgente sobre uma reunião que já morreu.
Senta que lá vem história, há cerca de vinte e cinco séculos, Buda falou desse mecanismo no Sallatha Sutta, o Sermão da Flecha. Imagine a cena: a planície do Ganges, poeira, calor parado, um grupo de monges sentados à sombra de uma figueira depois de um dia inteiro caminhando de vila em vila com a tigela de esmolas na mão. Chão rachado, sol branco, silêncio. Buda passou quarenta e cinco anos andando por aquelas planícies do norte da Índia, e foi num cenário seco assim — não muito diferente do cerrado em agosto, aliás — que ele fez a pergunta. Salla, em páli, pode ser traduzido como flecha ou dardo.
Nesse trecho, Buda pergunta aos monges qual é a diferença entre uma pessoa comum e alguém que recebeu os ensinamentos quando ambos vivem uma experiência dolorosa. Vem a pergunta: Quem é afligido pela flecha, sente dor? Sim, óbvio, né? E depois? Aí a coisa muda de figura: a pessoa comum sente a dor e passa a lutar mentalmente contra ela mesma. Lamenta, desespera, dramatiza, pergunta por que aquilo aconteceu, imagina o que deveria ter feito. Depois da primeira flecha, ela mesma se ataca com outra flechada no mesmo lugar, como se a primeira não tivesse sido suficiente. E olha que era. Ainda assim, vem a segunda.
Vamos voltar à cozinha e ao prato sujo de molho de tomate. A primeira flecha é a frase do chefe, o término, a traição, o diagnóstico, a perda. Zap! A coisa atingiu você. Não foi escolhida e não precisa ser minimizada. Há coisas que doem mesmo. Doem e pronto.
Já a segunda flecha começa quando a mente transforma o acontecimento em reprise de seriado mental contínuo. Cena reconstruída, tons alternativos das pessoas, da narração, respostas para uma conversa encerrada e explicações cada vez mais completas sobre aquilo que passou. E a cada episódio chegam as conclusões: ele nunca me respeitou; eu sempre travo na hora; deveria ter respondido, na próxima vez, ele vai ver!
É possível que você ainda tenha coisas para resolver com seu chefe, talvez você realmente precise conversar com ele, estabelecer limites ou reconhecer que errou. Simplesmente pensar sobre uma situação dolorosa não é automaticamente ruminação mental. Pode ser uma decisão que estava faltando. Mas na maioria das vezes, o pensamento para de produzir informação e passa a produzir apenas mais pensamento. A reunião começa no mesmo ponto, percorre o mesmo trajeto e termina com você sentindo novamente aquilo que sentiu da primeira vez, sem que nada de novo seja adicionado, nenhuma decisão nova tomada, nenhuma providência apresentada como solução. Você só sai de mais uma reprise, sentindo o golpe como se ele estivesse acabado de acontecer.
É aí que o discernimento e a imagem da segunda flecha se tornam úteis — e não para você se culpar pelo sentimento em looping, porque isso, convenhamos, seria uma terceira flecha. A verdadeira clareza está em separar a dor verdadeira da dor simulada que a mente continua vivendo. Eu levei anos para aprender essa separação, e ainda erro. A diferença é que hoje, quando a reprise começa, uma parte de mim desconfia. Desconfiar da mente foi o melhor hábito que o budismo me deu.
Para as dores da vida, o tempo pouco importa. Uma perda antiga pode doer hoje de forma legítima. O luto não obedece a prazo, e o trauma, esse então, nem consulta o calendário para decidir quando some ou reaparece. Algumas experiências precisam de tempo, cuidado e até acompanhamento. Portanto, não se pergunte “Eu já não deveria ter superado isso?” Pergunte algo mais honesto: “O que pertence ao acontecimento e o que é replay inútil?”
Se ainda existe uma providência a ser tomada, tome-a. Tenha a conversa, peça ajuda, escreva o que precisa dizer, releia pela manhã antes de enviar. Se é uma dor recente ou uma perda que voltou a se abrir, trate-a como o que ela é: dor, e não falha espiritual.
Mas, se nada está acontecendo às 21h17 além de você, um prato ensaboado, um cerrado seco do lado de fora e uma reunião encerrada há muitas horas ou dias, talvez seja possível reconhecer a reprise e a segunda flecha. Você não precisa expulsar o pensamento, muito menos fingir uma serenidade que não tem. Quando a cena voltar, faça uma pergunta curta: Primeira ou segunda flecha?
Pode ser que seja a segunda e, mesmo assim, continue pensando por mais meia hora. Sem problemas. Uma pergunta não desfaz um hábito. O primeiro avanço é mais modesto: perceber. Identificar sua mão procurando a flecha para se autoflagelar. Quando isso acontecer, volte a atenção para a água, para o molho de tomate, para a música e volte para o lugar onde você realmente está. Uma hora a chuva volta ao cerrado. A reunião, não.
A reunião não vai voltar, já não existe, acabou.
A louça, infelizmente, ainda não.


